Thor sempre foi um personagem complicado dentro do universo cinematográfico da Marvel. O potencial estava ali, mas passava a impressão de que não sabiam direito o que fazer com ele. Os dois filmes solos do personagens, apesar de não serem terríveis, sempre foram considerados o elo mais fraco entre os filmes da Marvel, e realmente são dois filmes bem mais ou menos, salvos basicamente pelo Loki roubando a cena. Mesmo nos filmes de grupo, o Thor sempre acabava ficando um pouco de lado, nunca utilizando totalmente o poder do personagem, ficou em segundo plano na Era de Ultron e nem participou da Guerra Civil. O futuro não parecia muito promissor.

Mas algo aconteceu recentemente.

As pessoas descobriram que o Chris Hemsworth não tinha talento apenas para ser o bonitão australiano sem camisa, o cara é também um ótimo ator de comédia. Surpreendentemente bom. Com o personagem sempre tendo um pézinho nesse gênero (como o MCU todo tem) e com o sucesso de filmes de herói que apostaram na comédia, como Guardiões da Galáxia, esse foi o caminho escolhido para o Deus do Trovão. Aos cuidados do diretor Taika Waititi, Thor Ragnarok foi totalmente pra esse lado divertido e inconsequente, e meu amigo, esse foi o maior acerto com o personagem nesses 9 anos de filmes da Marvel.

Pura comédia

Thor Ragnarok é um filme de comédia. Ponto. Não é apenas um filme de herói pontuado com uma piadinha aqui e outra ali, comédia é o gênero principal, estando presente da primeira até a última cena do filme, e servindo como base pra toda a narrativa.

É um filme despretensioso, sem vergonha de ser o que é, e que sempre foi muito honesto nisso. Uma comédia é como o filme foi apresentado e vendido desde o primeiro trailer, e fica claro qual a proposta em toda a divulgação, entrevistas, por ser dirigido por alguém que sempre fez comédias e até no poster hiper colorido do filme. Na verdade essa pegada vem desde antes disso tudo, começando com aquele curta que mostra o que o Thor estava fazendo durante a Guerra Civil, também dirigido pelo Taika Waititi. Dá pra falar que esse pequeno curta é o real antecessor de Thor Ragnarok, muito mais até do que os dois primeiros filmes.

Me leve pra Sakaar

Toda essa loucura colorida, muito inspirada no estilo visual de Jack Kirby, traz uma aparência muito bem acertada pra Ragnarok. Mesmo talvez não sendo nada excepcional se analisado de uma forma mais técnica, o visual do filme é simplesmente agradável de se olhar.

Asgard continua não sendo tão explorada, mas boa parte do filme se passar no planeta Sakaar, que é o local mais bonito, rico e interessante que já apareceu em um filme da Marvel. Uma mistura de lixão com metrópole, algo que poderia ser um planeta de Star Wars, mas durante o carnaval e com uma arena de gladiadores sendo o principal esporte do lugar. Sim, eu também queria passar umas férias por lá, você não está sozinho nessa.

 

Ah-ah, ah!

Trilha sonora sempre foi um dos pontos mais baixos entre os filmes da Marvel, tirando o primeiro Guardiões da Galáxia que usa músicas licenciadas de forma fenomenal, era uma parte bem esquecível dos filmes.

Thor Ragnarok é um bom passo na direção certa também nesse quesito. A trilha sonora original é muito mais presente, e mesmo não sendo inesquecível, funciona bem pra manter a mudança de tom entre as cenas do filme. Mas a maior conquista fica pelo uso de Immigrant Song como a música de assinatura. Não só nos trailers de divulgação e nos créditos finais, a música do Led Zeppelin é bem colocada durante o filme. A sequência de abertura, com o Thor cabeludo enfrentando “demônios” com essa música tocando de fundo não só é uma homenagem aos clipes de metal dos anos 80, mas também é apresentação perfeita para o que vai vir a partir disso.

 

O maior acerto

Se o tom, o visual e a música funcionam bem, o ponto mais alto do filme ainda são os personagens. Fazia tempo que não assistia algo que tinha tanta gente ali, mas que basicamente todos eles estão ótimos, fica difícil apontar alguém pra falar que roubou a cena.

É a melhor versão do Thor no cinema, finalmente o personagem se encontrou. Mas é também a melhor versão do Hulk, com o gigante “inteligente” conversando e interagindo com os outros, e sim, o Hulk nesse filme é mais bonitinho que o Baby Groot. Até no modo Bruce Banner é ótimo, com aquela sensação de que ele acabou de sair da maior ressaca da vida dele e não tem ideia do que está acontecendo. Loki continua muito bem na tela, e se ele não brilha tanto como antes é mérito de tantos outros personagens que entregam bem a sua parte. Até o Heimdall, que nunca foi lá muito aproveitado, continua não sendo, mas tem seus momentos pra mostrar que é fodão, com direito a cortar duas cabeças e uma árvore com um só movimento de espada.

 

 

E os (vários) novos personagens também estão perfeitos, chegando no tom afiadíssimos e se provando como ótimas escalações. Eu não estava muito empolgado com a Valquíria antes do filme, mas a Tessa Thompson calou a minha boca cheia de desconfiança e fez uma personagem que não só funciona bem pro filme, como adiciona um perfil totalmente novo no universo da Marvel. O Grão-Mestre é o Jeff Goldblum sendo o que se espera do Jeff Goldblum, e não tem como isso não ser sensacional.

Cate Blanchett como Hela é uma das melhoras vilãs do MCU (o que não é lá muito difícil, convenhamos), e além de belíssima como sempre, conseguiu criar uma personagem imponente e carismática. Eu até queria que ela tivesse sido melhor aproveitada, tendo um pouco mais de destaque, mas é compreensível devido a limitação de tempo e da quantidade de personagens que existem no filme.

 

 

Até o próprio Taika Waititi marca presença, vivendo o grandalhão de pedra bonzinho Korg, através de captura de movimento, que também tem seus bons momentos durante a história. Mas foi o amigo dele, Miek, que me conquistou. Miek é um personagem bem pequeno no filme, algo como um inseto alienígena humanoide que tem espadas no lugar de braços, e sempre que aparecia, ele ficava sozinho no fundo da cena fazendo movimentos de luta, e cara, eu tinha que me segurar pra não ficar rindo o tempo todo disso. E rindo sozinho.

 

Piada demais atrapalha?

Thor Ragnarok é uma metralhadora de piadas, com elas presentes em todas as cenas. Disso surge aquele questionamento de se isso precisaria ser melhor dosado no filme, porque obviamente quando você tem um número tão grande de piadinhas sendo feitas, nem todas vão funcionar pra você. Mas o ponto é, não acho que isso é um problema quando a maioria das piadas funcionam, e nem acho que Thor Ragnarok seria um filme melhor com uma quantidade mais reduzida delas, já que assim muita coisa boa também acabaria ficando de fora.

 

 

E senso de humor acaba sendo algo bem pessoal no fim, isso fica claro tendo assistido no cinema. As piadas que não funcionavam comigo ao mesmo tempo acertavam em cheio o Fernandinho de duas fileiras na frente, com sua batata Ruffles barulhenta e gargalhada nada discreta. Era inconveniente? Sim, mas o Fernandinho também tem direito de rir, e nisso o humor do filme é bem generoso.

Tem piadas com humor mais físico, existem piadas de referência, o mais puro “humor quinta série” e várias outras piadas que podem até passar batidas pra muita gente, por estarem acontecendo quase que escondidas na cena. E esse é exatamente o tipo de humor que o Taika Waititi sempre fez. Então não importa qual o seu tipo de humor preferido, o filme vai ter fazer rir. Pode não ser em todas as cenas, mas vai.

 

A melhor aventura nem sempre é a principal

Mesmo com a comédia sendo a base do filme, ele consegue ir além disso, até muito mais do que eu esperava. Existe uma aventura acontecendo, e o filme tem inclusive algumas das cenas de ação e de luta mais legais e empolgantes entre todos os filmes da Marvel. Até em relação aos poderes do Thor, eles são usados de forma muito mais criativa e convincente, desde a utilização do Mjolnir nas primeiras batalhas, ou na evolução do personagem durante o filme, finalmente merecendo o título de Deus do Trovão.

E a forma mais despretensiosa com que essa aventura é conduzida combina bem demais com a proposta geral. Sabe aqueles filmes onde um personagem some logo no início, pra voltar de forma grandiosa no final? Então, Thor Ragnarok é basicamente sobre a história que acontece com esse personagem, entre esses dois pontos. Sim, essa aventura não contada muitas vezes pode ser mais interessante do que a trama principal. E que bom que dessa vez ela foi contada de fato.

 

Mudança justificada

Thor Ragnarok é uma grande mudança em vários pontos. É diferente dos quadrinhos, é diferente do tom geral e também é diferente do que tinha sido construído com o personagem durante todo esse tempo. Isso pode afastar algumas pessoas, mas quando é uma mudança tão positiva eu não consigo ver como algo a ser criticado, principalmente quando o caminho anterior não estava dando muito certo. Depois de tantas tentativas e erros, finalmente acharam a melhor forma de fazer o personagem no atual universo de filmes da Marvel. Não é um problema, é uma conquista.

Existem alguns pontos que poderiam ser melhor trabalhados, tendo um impacto maior, principalmente na conclusão de certos arcos que acabam passando a impressão de terem sido encerrados de qualquer forma. Isso é mais evidente no fim do desenvolvimento de um dos personagens, que acaba de forma tão abrupta que eu nem acreditei que ia ficar por ali mesmo. Mas ficou.

 

 

De qualquer forma isso não é algo que atrapalhe o filme como um todo, quando ele acerta em praticamente tudo que se propõem. Falar que esse é o melhor filme do Thor é o elogio mais fácil do mundo, já que isso não seria mais do que a obrigação dele, mas Thor Raganarok também acabou sendo um dos meus filmes preferidos de todo o MCU, e facilmente o filme mais divertido que eu assisti durante o ano inteiro.

E olha que eu nunca esperei falar isso de um filme do Thor.

> Vale a pena assistir?

Thor Ragnarok é uma comédia sem vergonha, deliciosamente divertida, colorida, recheada de referências, easter eggs e com alguns dos melhores personagens que você vai ver em qualquer filme da Marvel. É uma mudança de tom enorme se comparado aos dois filmes anteriores, mas é uma mudança certeira e que colocou o Thor no caminho que ele deveria estar desde o início. Obrigado Waititi.

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> Trailer:

> Sinopse:

Thor está aprisionado do outro lado do universo, sem seu martelo, e se vê em uma corrida para voltar até Asgard e impedir o Ragnarok – a destruição de seu lar e o fim da civilização asgardiana – que está nas mãos de uma nova e poderosa ameaça, a terrível Hela. Mas primeiro ele precisa sobreviver a uma batalha de gladiadores que o coloca contra seu ex-aliado e vingador – o Incrível Hulk.

> Mais Informações:

Nome Original: Thor: Ragnarok
Gênero: Comédia / Aventura
Duração: 02h 10m

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