A jornada recente da DC no cinema não tem sido fácil. Seu esforço pra criar um universo compartilhado entre as suas grandes franquias vem sendo de certa forma até emocionante de se acompanhar, cada capítulo com uma surpresa diferente.

A DC tem algumas boas vantagens do seu lado, pra dar aquela ajuda no processo, como ser dona dos direitos de todos os seus heróis, seus personagens serem de forma geral os mais populares (ao menos fora do cinema) e o filme de herói mais aclamado de todos os tempos, The Dark Knight, ser dela. Mas mesmo assim, o caminho para criar essa ligação entre os filmes tem passado longe de ser uma viagem tranquila. É uma montanha-russa, com mudanças de planejamento anunciadas quase que semanalmente.

E até quando você analisa apenas os filmes mesmo, não existe regularidade. Do ano passado até agora tivemos Batman vs Superman, que foi bem divisivo entre o público, seguido de Esquadrão Suicida, que teve um destino mais triste e uma recepção ainda mais negativa. Já esse ano, o filme solo da Mulher Maravilha superou as expectativas e conseguiu ser um sucesso pleno, com ótimas avaliações pela crítica e pelo público, e bilheteria acima do esperado. Finalmente um alto na trajetória conturbada do Universo Expandido da DC nos cinemas.

E é nesse embalo que chega o filme da Liga da Justiça, o encontro dos principais heróis e um sonho realizado de muitos fãs. Se nos últimos três filmes tivemos um sucesso, uma decepção e um “ame ou odeie”, em qual dessas categorias o filme da Liga se enquadra?

Nenhuma delas.

Grandioso como deveria?

Se a gente tivesse que escolher uma palavra pra definir qual a sensação que um projeto desse deveria passar, a palavra seria grandiosidade.

A reunião dos heróis de quadrinhos mais conhecidos do mundo precisa ser um evento especial. Assistindo, o filme deveria te passar essa sensação de grandeza, e a minha surpresa com o filme da Liga é justamente o quanto ele não faz isso.

Não acho que seja um filme ruim, mas falta. Falta pompa, falta imponência, falta aquele pensamento de “caralho, agora a coisa ficou séria”. E tem um motivo pra isso, dois na verdade.

Primeiro, a recepção não muito positiva de Batman vs Superman, com sua personalidade sisuda, bruta, pesada, onde o mundo dos heróis não é exatamente um local agradável. Por mais que eu pessoalmente tenha gostado do resultado daquele filme, não era o que muita gente queria ver, então é perceptível que dessa vez a Warner tentou fazer tudo da forma mais simples e leve possível. O que não seria um empecilho se não fosse o segundo problema do filme, o roteiro de Liga da Justiça é bem fraquinho.

O ponto mais fraco vem da ameaça, do vilão que faz com que os heróis da DC se unam. O antagonista do filme é o Lobo da Estepe, que já é um personagem pouco conhecido no geral, e é basicamente o cara que surge buscando três artefatos poderosos (as Caixas Maternas), e juntando todas irá dominar a Terra. Sim, de novo.

E mesmo se não fosse original, ainda funcionaria se fosse um bom personagem, se existisse aquela sensação de urgência, de perigo, mas é tudo muito pouco inspirado, desde o visual que parece um inimigo dos Power Rangers, ou um personagem de Senhor dos Anéis, que iria aparecer só pra levar uma flechada do Legolas e morrer 5 segundos depois, até seus minions, que são tão mal utilizados que depois pouco tempo você até esquece que estavam na história.

Você que já assistiu, se lembra de pelo menos uma frase que o Lobo da Estepe tenha falado durante o filme? Difícil.

Os Heróis

A parte mais importante em um filme como esse é sem dúvida o grupo dos heróis, então vamos falar um pouco sobre cada um deles.

Mulher Maravilha

A Mulher Maravilha definitivamente se consagrou como o centro e o coração dessa fase da DC, e com seus próprios méritos. Depois do sucesso do seu filme solo, a personagem continua excelente no filme, igualzinha.

Na verdade é ela que faz quase tudo aqui, quando a coisa aperta é a personagem que puxa a responsabilidade e que resolve a situação, enquanto os outros dão mais aquele suporte mesmo. E quando eu digo resolve a situação, sim, é descendo a porrada. Gal Gadot se provando como uma escolha muito acertada. Que mulher.

Aquaman

Com seu filme de origem programado para o ano que vem, dá pra ver que foi um personagem poupado em Liga da Justiça, a participação dele aqui é mais decorativa do que qualquer coisa. Mas Jason Momoa é um poço de carisma, e essa adaptação do visual do personagem ficou boa demais.

É isso ai, é o cara gigante e cabeludo que só fica falando “YEAH”, “ALL RIGHT”, enquanto dá soco na caras nos bichos e bebe cerveja. Pra mim é o suficiente.

Flash

Flash ocupa várias “funções” no filme. É o esquisitão, é o moleque inexperiente que ainda não sabe como ser um herói e é o alívio cômico. Ele mal tem diálogos, na maior parte do tempo só faz alguma piada aleatória mesmo pra pontuar a cena. Ou uma careta com os olhos arregalados. Ou as duas coisas ao mesmo tempo.

É um humor que funciona as vezes, mas pelo menos pra mim na maioria delas não funcionou. Mas se isso seria a receita de um personagem irritante, surpreendentemente isso não acontece, mesmo quando suas piadas não funcionam, a presença do personagem é agradável, muito pelo jeito peculiar do Ezra Miller que consegue passar pelos diálogos fracos.

É um pouco decepcionante  o fato de um personagem com uma habilidade que pode gerar cenas tão legais acabar participando pouco da ação do filme, só o que ele faz é tirar as pessoas do local enquanto a luta acontece – e tropeçar, sempre. É mais um bombeiro muito rápido e eficiente do que um super herói.

Cyborg

O personagem menos conhecido do grupo, até por não fazer parte originalmente da Liga da Justiça, sempre foi esperado pra ser o ponto fraco da equipe, não tendo tido muito destaque nem na divulgação do filme. Mas no final o Cyborg acabou fazendo um bom trabalho no geral, é um personagem que tem a sua importância na narrativa, e que também traz o lado de ser alguém atormentado, que não gosta e renega os seus poderes – apesar disso ir se perdendo confirme o filme avança.

Não acho que conseguiria levar um filme só dele, mas funciona bem na equipe. A parte realmente ruim fica pro visual, onde a parte mecânica é toda feita em CGi, e o resultado é estranho pra caramba, muito artificial em vários momentos, dando aquela cara de efeito barato que simplesmente não é agradável de se olhar. E olha que o filme custou cerca de 300 milhões de dólares pra ser feito.

Batman

O maior, mais conhecido e amado personagem da DC, é também a maior decepção entre os membros da equipe. Batman é muito apagado no filme, parecendo até que o Ben Affleck realmente já desistiu do personagem e isso refletiu na participação dele em Liga da Justiça.

Se você gostou da versão dele em Batman vs Superman, não se empolgue muito, ele está bem diferente na Liga. Continua sendo aquele Batman mais velho, um Batman que toma Dorflex no café da manhã, só que agora com amigos e fazendo várias piadinhas. O maior problema é o quanto ele é carregado com frases de efeito, sempre usadas pra encerrar as cenas, com diálogos como “Quantos vocês são? Não o suficiente” ou a piadinha sobre ser rico.

Não tenho problemas com mudanças de tom desde que façam bem pro personagem, mas nesse caso eu só consegui sentir falta do Batman antigo.

Superman

Apesar de não ser uma parte tão grande do filme, Superman foi uma surpresa muito positiva e certamente uma das melhores coisas da Liga da Justiça, além da melhor representação do personagem no cinema.

E sim, ele é muito forte, muito mesmo, não tem comparação. Nunca em um filme de grupo assim algum personagem estava tão visivelmente em vantagem como é o caso dele, e até esse sentimento de esperança que ele representa está presente no filme. Só é complicado mesmo nas cenas que foram regravadas e que tiveram que retirar o bigodinho do Henry Cavill na pós produção, e o resultado não ficou lá grande coisa não. Esse Superman com cara “emborrachada” não é exatamente o que a gente esperava.

Filho de pais separados

Liga da Justiça passou por uma mudança de diretores durante a produção, começando e se mantendo pela maior parte do tempo como um projeto do Zack Snyder, até o diretor se afastar no início desse ano por problemas pessoais, e o Joss Whedon assumindo e fazendo modificações no roteiro e regravando algumas cenas.

Com dois diretores com estilos tão diferentes, você consegue perceber essa variação durante o filme. O resultado acabou sendo algo como se tivessem pego as partes mais leves de um filme do Snyder, mantido, e trocado as cenas mais pesadas por outras mais engraçadinhas, feitas depois. O resultado não é incoerente, mas um pouco apático. Não é exatamente um filme engraçado, nem um com muita personalidade, mas ainda é agradável. Só não vai muito além disso.

Cenas, as boas e a caixa

E se o roteiro não ajuda muito, não significa que não existe nada positivo além do grupo de heróis em si, Liga da Justiça conta com algumas boas cenas no meio disso tudo.

A primeira cena da Mulher Maravilha é muito boa, esbanjando o heroísmo e a força que a personagem tem na tela, e toda a sequência do Lobo da Estepe contra as amazonas é muito bem executada também, sendo minha parte preferida do filme todo. Até a parte onde o Flash percebe a força do Superman é um ótimo momento, e mesmo a cena pós-créditos (a segunda), em uma era onde todo filme de herói tem a sua, foi a mais interessante que eu vi em muito tempo, realmente te deixando na expectativa de ver o que vai acontecer a partir dali.

Ao mesmo tempo que boa parte das outras cenas também são esquecíveis, ou até bem ruins, em especial a forma como o vilão consegue uma das Caixas Maternas, que chega a ser absurdo, eu realmente quase desisti da história naquele momento. Não dá, ainda não consegui superar isso.

A Liga é maior que o filme

No fim, o filme da Liga da Justiça tem os seus momentos, e é sim legal de ver no cinema esses heróis que a gente cresceu acompanhando trabalhando juntos, e (quase) todos eles funcionam bem. O problema é que o filme em si faz muito pouco pra isso tudo, com uma história que você vai ter que fazer um esforço pra se lembrar umas semanas depois de ter assistido. É apoiado no carisma dos personagens, mas fica também a sensação de que embora não tenha sido um desastre, a Liga merecia mais.

> Vale a pena assistir?

Liga da Justiça é um filme que não se arrisca, com um roteiro muito simples e um antagonista genérico demais, mas com um grupo de heróis carismáticos e que funcionam bem como uma equipe. Falta grandiosidade, mas ainda vale a pena pra ver seus personagens preferidos trabalhando juntos. Fica aquela sensação de “é, foi o que deu pra fazer”, e se isso vai ser o suficiente pra você, vai depender do tipo de fã que você é.

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> Trailer:

> Sinopse:

Movido por sua fé restaurada na humanidade e inspirado pelo sacrifício do Superman, Bruce Wayne conta com a ajuda de sua nova aliada, Diana Prince, para enfrentar um inimigo ainda maior. Juntos, Batman e Mulher-Maravilha trabalham rápido para encontrar e recrutar uma equipe de metahumanos para se opor à nova ameaça. Mas apesar da formação dessa liga de heróis sem precedentes – Batman, Mulher-Maravilha, Aquaman, Flash, e Ciborgue – pode ser tarde demais para salvar o planeta de um ataque de proporções catastróficas.

> Mais Informações:

Nome Original: Justice League
Gênero: Ação
Duração: 02h 00m

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