O retorno do palhaço Pennywise pode ser o filme de terror mais popular da atualidade – inclusive caminha para ser a maior bilheteria do gênero de todos os tempos, mas It vai muito além de ser apenas um filme de terror. E nem digo isso como um elogio ao filme ou demérito ao gênero, mas sim por intencionalmente a história abranger muito mais estilos e temas do que a pura sanguinolência cinematográfica. It é sobre amizade, companheirismo, enfrentar medos, amadurecer, rolé de bike com os amigos, cartinhas de amor pra bonitinha da escola e até problemas familiares. É um filme que está muito próximo de outras produções como Goonies, Conta Comigo e até o mais recente Stranger Things, só que com um palhaço devorando uma galera no meio disso tudo.

É difícil definir o quão pesado o filme realmente é. Sim, tem cenas bem impactantes e que não tem pudor algum de mostrar o que realmente está acontecendo (e cara, geralmente não é algo bom não), com muitos litros de sangue gastos na produção e alguns membros decepados, mas tudo isso vem junto com uma pegada mais leve, em um filme que não tem pressa e que constantemente muda o foco pra momentos mais divertidos e relaxados.

Inclusive, o filme funciona tão bem no humor quanto nas partes de terror, muito devido ao carisma dos personagens, em especial ao Eddie, aquele amigo hipocondríaco criado em apartamento que todo mundo tem, e ao Richie, que só fala besteira o tempo todo e que vai virar seu personagem preferido de qualquer forma. O próprio Pennywise é carismático, de um jeito bem bizarro e grotesco, mas é.

E a interpretação de Bill Skarsgård é excelente também, criando um vilão único, com seus trejeitos estranhos, olhar estrábico e um sorriso que consegue causar repulsa, mas com uma certa ternura. O trabalho de maquiagem é tão bom que o uso de muitos efeitos especiais no palhaço (principalmente nas cenas dele correndo na direção da câmera) algumas vezes até atrapalham, você já teria o suficiente sem eles, e seria até mais assustador. Mas a imagem do Pennywise funciona muito bem na tela, e por ele ter a habilidade de se transformar no medo das suas vítimas, existe uma variedade bem legal de apresentações durante o filme, o que faz com que você não se acostume tanto com a presença dele na cena, e consegue se manter como algo que causa um incômodo até o final.

Sempre penso que filmes de terror são sobre “menos”, você não precisa mostrar e explicar tudo, deixar algumas pontas soltas e janelas abertas são parte da construção da tensão e da graça, e It faz isso bem em alguns pontos, como não realmente explorar o que é o palhaço, ele simplesmente está ali, e vida que segue. Claro que existem algumas descobertas sobre isso ao longo da história, mas sem passar do ponto. Outra ausência bem explorada são dos adultos, tanto dos pais dos personagens, como dos habitantes da cidade em si. É um filme sobre as crianças, e completamente delas, sendo que a presença adulta só vem como mais um elemento de problema, quando ela traz algo as vezes mais perturbador e problemático do que o próprio monstro do filme. Porém, também existem outros momentos em que o “menos” foi deixado de lado, como o excesso de cenas com o Pennywise atacando os personagens na primeira parte do filme, ou mesmo uma quantidade bem grande de sustinhos. Toda vez que existe uma possibilidade de encaixar um jump scare, eles encaixam. As vezes mais de um. Não chegou a me incomodar, mas poderia ter funcionado melhor se tivessem segurado mais a mão nisso.

O filme tem esse ritmo de montanha-russa, alterando entre cenas tensas e momentos mais leves, que ajudam a manter a experiência geral confortável, mas que ao mesmo tempo atrapalha um pouco a construção da tensão. A primeira cena do filme não só é a mais forte, tensa e impactante, como também é talvez a melhor do filme inteiro – mesmo tendo outras muito boas. É legal começar com essa porrada na cara que te faz pensar “puta merda, porque eu vou assistir isso?”, mas te faz esperar coisas que o filme pode não entregar depois. Mas pelo menos ele entrega o suficiente.

It é um filme simplesmente agradável, o que é uma definição totalmente inesperada por mim antes de assistir, como um filme sobre um palhaço que caça e come crianças pode ser agradável, mas ele consegue ser. Pode não ser um filme tão assustador quanto você espera, porque até as cenas de terror vão pra um lado mais de entretenimento do que do sadismo em si – felizmente. Eu nunca gostei de palhaços, e sempre pensei que a franquia It era algo que eu iria passar longe pro resto da vida, mas depois de assistir a nova versão, eu só consigo pensar em assistir mais uma vez.

> Qual é a história?

Um grupo de crianças, auto-intitulados “Clube dos Perdedores”, que se unem após sofrerem constante bullying e outros problemas pessoais, enfrentam Pennywise, algo em forma de palhaço que desperta na cidade a cada 27 anos e mata uma série de pessoas durante suas aparições.

> Vale a pena assistir?

O novo It veio para garantir seu lugar em várias listas, como melhores filmes de terror modernos, melhores remakes, e melhores filmes de “amigos unidos encarando altas aventuras”, mesmo que não seja na primeira posição. Um dos filmes mais divertidos de se assistir do ano, sem dúvidas vale muito o seu tempo – e o ingresso do cinema.

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> Trailer:

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