Blade Runner, o original, não foi um puta sucesso de público quando foi lançado, lá em 1982. Mas o sucesso acabou vindo, quando o filme ganhou status de clássico cult, servindo como inspiração pra muita coisa que veio depois dele, com seu estilo cyberpunk noir, e seu universo distópico cativante – nada como histórias onde o futuro é um lixo, mas você ainda quer viver lá mesmo assim.

Eu só fui realmente assistir Blade Runner tem pouco tempo, e dois pontos foram os principais pra mim. Primeiro, o quanto o filme continua atual em vários fatores, e o segundo, o quanto o universo da franquia é interessante, inclusive muito mais interessante do que a história do primeiro filme. Blade Runner passa essa impressão de ser um capítulo dentro de algo muito maior, mas algo muito maior que acabou nunca acontecendo, justamente pela recepção morna do filme quando foi lançado. Só que não mais, o inesperado aconteceu e Blade Runner ganhou uma sequência direta, de grande orçamento e feita por um dos diretores mais pops da atualidade, o Denis Villeneuve.

Valeu a espera? Depende.

 

Meu Deus, como esse filme é bonito

Vamos tirar isso logo do caminho, sim, o filme é bonito. Bonito pra cacete. Tão bonito que me deixa triste de ter assistido em 3D, com aquele óculos odiável que deixa tudo escuro. O original já era um absurdo de bonito (e continua sendo até hoje), e a versão atual herdou isso.

A tecnologia super avançada, mas com aquele estilo antiquado continua lá, dessa vez mais moderninha do que antes, mas ainda sem touchscreens. O futuro do universo onde os robôs realistas vieram antes do iphone tem dessas coisas. Só senti falta de usarem mais a cidade, que pra mim sempre foi o ponto visual mais alto de Blade Runner, inspirada em Hong Kong, só que ainda mais futurista. Ela está presente no novo filme, mas aparece bem pouco. Mas foi o suficiente para pelo menos perceber que agora os guarda-chuvas não tem mais aquela luz de led no cabo. Já é um ponto positivo.

É engraçado ver que ao mesmo tempo em que o mundo está “melhor” em Blade Runner 2049, existe uma aparência ainda mais desolada nos cenários. Tudo é muito amplo, com aquela cara de que algo muito ruim aconteceu ali algum tempo atrás, e aquilo foi o que restou. É um contraste com a aparência mais vívida do original, mas é legal ver essa diferença em uma sequência. Nem tudo precisa ser igual.

 

Blade Runner 2001

Falando em diferenças, a trilha sonora também segue isso, mas com um resultado final que acabou não me agradando tanto quanto a mudança visual. Sim, ela é muito boa, e tem até um aspecto mais grandioso do que a do primeiro filme, mas é bem diferente. Tem um pouco de Blade Runner ainda ali, mas em vários momentos acabava me lembrando muito mais algo como 2001 – Uma Odisseia no Espaço, junto com uns TAANNS e BOOMMS impactantes que existem na maioria dos filmes hoje em dia. E eles estão bem altos aqui, bem altos mesmo.

O filme todo na verdade passou essa sensação de ser um 2001 vs Blade Runner, e vendo algumas entrevistas com o Villeneuve, ele mesmo cita que alguns dos filmes que mais impressionaram ele quando criança foram justamente 2001, Blade Runner e Contatos Imediatos de Terceiro Grau – que foi uma grande inspiração pro seu outro filme, A Chegada. Então é até esperado ter um pouco de 2001 em 2049, tem até no título.

 

A (quase) interminável jornada

O grande problema do filme vem do ritmo. Cara, Blade Runner 2049 é lento.

Um filme ser lento está longe de ser um problema por si só, o defeito vem do que faz o filme ser lento. Com quase 3 horas de duração, a história não é o suficiente pra preencher esse espaço, não chega nem perto. O resultado é que tudo acaba sendo bem diluído, exageradamente diluído. Como disse no início, a franquia sempre teve essa sensação de ter um universo muito mais rico e com mais coisas a serem exploradas do que o roteiro simples (mas que funciona) do primeiro filme aproveita. Quando vi que a sequência teria essa duração, meu primeiro pensamento foi “ótimo, agora sim vão conseguir trabalhar muito mais coisas ali”, só que não foi isso que aconteceu. O roteiro de Blade Runner 2049 é tão simples quanto o do original, talvez mais.

 

 

Então com o que é preenchido todo esse tempo extra? Sendo direto, é preenchido com imagens bonitas, takes longos e música crescente ao fundo. Tem uma cena que é a perfeita ilustração de Blade Runner 2049, e que vou tentar contar aqui sem maiores spoilers:

Em determinada parte do filme, o K, protagonista da vez, chega em um local, e ao ver um ponto específico, liga os fatos e entende o que está acontecendo. Não é algo sutil, a câmera mostra pra onde ele está olhando, dá até uma pausa, e o filme já tinha te dado todas as informações antes pra você entender o que aquilo significa. Então o K já entendeu, você já entendeu, o roteiro já andou, vamos seguir o filme, certo? Não. Ele precisa pensar, refletir, voltar lá. Precisa andar devagar no escuro, com a luz passando pelas brechas e criando um efeito visual bem bonito e estiloso nele, com a música crescendo ao fundo em cada passo, ficando grandiosa, quase ensurdecedora, até chegar no destino. Pra ele com cuidado examinar, pegar o que tem lá e ter a revelação dramática – que é simplesmente a mesma que já tinha ficado clara desde o início, sem precisar gastar 5 minutos nisso.

Isso é uma direção errada? Não é, até porque é tecnicamente bem feito, fica bonito na tela, mas pra mim é o tipo de coisa que faz o filme se arrastar muito, e até empobrece o roteiro. Talvez pra outras pessoas isso possa ter o efeito contrário e ter criado uma experiência cinematográfica única, mas é algo que realmente me perde.

 

O universo ainda compensa

Blade Runner 2049 não é um filme ruim, mesmo. Ryan Gosling é um bom novo protagonista, pode não ter o mesmo carisma do Deckard, mas tem o suficiente pra levar o filme, o problema dele é que o roteiro, como um todo, nunca chega lá. Os outros novos personagens não acrescentam tanto, novamente não por falta de competência, mas por falta de espaço. Até o sempre divisivo Jared Leto está bem no filme e traz um personagem interessante, mas que acaba sendo uma parcela bem pequena do roteiro. Tem mais espaço no cartaz do que no filme mesmo.

Mas sim, o universo da franquia continua muito interessante e ele consegue ser expandido, até por não descartar nada do primeiro filme, tudo novo vem pra somar. Além de obviamente o filme ser um primor técnico em vários pontos, e da direção com que a história siga funcione, tudo isso é muito bom sendo visto assim, como pontos isolados. Vendo tudo junto, maior do que tudo isso era o pensamento de “nossa, esse filme não acaba mesmo”. É longo ao ponto das luzes do cinema da minha sessão terem acendido antes do filme acabar, sem brincadeira.

 

 

No fim, não descreveria como uma experiência de altos e baixos. É uma experiência de altos, mas com longas e demoradas pausas entre eles, e alguns dos altos nem são tão altos assim. Não me arrependo de ter assistido, mas não sei se encararia uma segunda assistida tão cedo. Talvez em uma versão Final Cut, com 2/3 do tempo – e o mesmo conteúdo.

Pelo menos a Siri do futuro vai ser bem mais interessante. Já o ménage, nem tanto.

> Vale a pena assistir?

Blade Runner 2049 é uma sequência digna. Falta um pouco do charme do original, ao mesmo tempo que só a parte visual do filme já é boa o suficiente pra valer a pena ser visto. Vá preparado para um filme lento e que demora quase 3 horas, mas que entrega coisas boas nesse caminho. E dê uma boa alongada nas pernas, nas costas e no pescoço no final, vai precisar.

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> Trailer:

> Sinopse:

Trinta anos após os acontecimentos do primeiro filme, a humanidade está novamente ameaçada, e dessa vez o perigo pode ser ainda maior. Isso porque o novato oficial K (Ryan Gosling), desenterrou um terrível segredo que tem o potencial de mergulhar a sociedade no completo caos. A descoberta acaba levando-o a uma busca frenética por Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há 30 anos.

> Mais Informações:

Nome Original: Blade Runner 2049
Gênero: Ficção Científica / Thriller
Duração: 02h 45m

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