A Bruxa (The Witch) é um dos filmes mais comentados do momento, surgiu praticamente do nada, recebendo notas excelentes nas críticas e elogios de pessoas influentes, como do próprio Stephen King, o que começou a gerar um hype em torno do filme, e muita gente nem sabia exatamente o motivo disso tudo. Eu pertenço a esse grupo, resolvi assistir no cinema (o que pode não ser uma tarefa fácil, já que ele está sendo exibido em poucas salas) apenas pelo hype, sem saber nada do filme, nem mesmo o trailer eu assisti antes, achei que seria a melhor forma de ter uma boa experiência com o filme. Só que agora eu posso falar que não foi lá uma das minhas melhores ideias, já que A Bruxa é um filme bem diferente, estranho, então assistir sem saber exatamente o que esperar pode ser um caminho quase certo pra decepção.

O filme se passa no século XVII, e mostra a história de uma família que foi banida de onde morava, sem deixar muito claro o motivo disso, e que se mudaram para um local perto de uma floresta, onde se estabeleceram e passaram a viver isolados. Logo nas primeiras cenas do filme, algo acontece com um dos personagens, e a partir disso você vai vendo a família desmoronando pouco a pouco, e por serem extremamente religiosos (algo comum na época), tudo tem esse lado de punição divina, de provação, de pagar pelos pecados, é essa a visão deles sobre? o que está acontecendo.

O primeiro ponto importante para se ressaltar é que não existe um “inimigo” claro aqui. A bruxa, que supostamente viveria na floresta e seria responsável pelo que acontece logo no início do filme, sempre é mostrada como algo que pode existir ou não, pelo menos no sentido da própria família acreditar nisso. O mais certo é falar que o outro lado da história seria o “próprio mal”, que vai sendo representado de diversas formas, como com a bruxa, como algumas aparições e acontecimentos bizarros, como o bode preto que vive na fazendinha deles, e dá pra fazer uma lista muita maior e discutível sobre isso, indo até pra pontos polêmicos como a própria fé cega.

A Bruxa não é um filme de terror tradicional, até porque nada é tradicional aqui. Também acho difícil classificar como terror psicológico, não parece ser a intenção do filme. É muito mais sobre a atmosfera, sobre te deixar desconfortável e pensando sobre aquilo mesmo depois de uma cena já ter acabado há algum tempo, a tensão não é exatamente sobre a expectativa de algo acontecer, mas de digerir e entender o que já foi mostrado. O ritmo do filme é bem lento, e a maior parte do tempo passa a sensação de não ter quase nada acontecendo. Quando você olha pro filme como algo para o entretenimento (e sim, filmes de terror costumam ser muito fortes nesse aspecto), A Bruxa parece passar longe disso, usando uma palavra bem simples, é um filme até “chato” de se assistir, apesar de não ser ruim.

O lado do terror não é feito com sustos, que são bem escassos no filme, na verdade o que o filme provoca é muito mais um desconforto do que medo. Uma das ferramentas usadas pra criar isso é a trilha sonora, que é completamente bizarra, mistura de sons estranhos com o que parece ser o áudio de rituais de satanagens, e que vai ficando tão alto durante certas cenas que pra mim passa do ponto, eu cheguei a parar apenas de querer que a cena acabasse pra parar de escutar aquilo (que acredito ser a intenção do filme), para querer que o filme acabasse logo, pra não passar de novo por essa tortura auditiva. Mas são só uma ou duas cenas em que isso realmente me incomodou, não chega a estragar a experiência geral.

A parte mais bizarra aqui fica por conta do casal de gêmeos, de uns 7 anos de idade. Se duas crianças cantando aquelas musiquinhas de criança já é algo bem perturbador, imagina duas crianças cantando musiquinhas sobre um bode ser o capeta. E principalmente quando esse bode é o Black Phillip, bode preto, meio bizarro, da sua fazenda.

Durante o filme, muitas coisas vão sendo deixadas para a interpretação de quem está assistindo. Não é exatamente algo complexo, que você vai ter que pensar e viajar muito pra entender, fica mais no sentido do “sera que é, ou não é?”. E isso segue até o momento onde o filme parece que vai acabar, só que ai ele volta e mostra a cena final, quase como se fosse mostrar se você estava certo com o seu pensamento ou não. Eu até gostei do final, por mais que vá contra o estilo que estava sendo usado durante todo o filme, achei que ele traz uma perspectiva bem interessante pra história.

A Bruxa é um filme que praticamente só recebeu elogios da crítica, mas não agradou a maior parte do público. Pra ilustrar, ele tem 89% de aprovação pela crítica no Rotten, mas só 52% pelo público, o que é bem baixo. Todas as notas de sites que eu vi antes de escrever essa matéria? foram altas, mas na sala de cinema era visível que quase todo mundo estava arrependido de ter gastado dinheiro e tempo assinto ao filme. E eu posso falar que eu mesmo fico divido quanto a isso. Como espectador, o filme não me agradou muito, é arrastado, até um pouco entediante em certos pontos, se eu fosse dar minha opinião assim que acabei de assistir, ela não seria das melhores. Por outro lado, como iria escrever sobre o filme aqui, analisando melhor, pensando mais sobre o filme, a opinião melhorou consideravelmente, porque é um filme denso, que vai te deixar pensando sobre ele depois, além de trazer muitas coisas diferentes pra um gênero que precisa muito de uma renovação.

O filme vem recebendo até comparações com clássicos como O Exorcista e O Iluminado, mas pessoalmente não concordo muito, pelo menos em questão de ser algo marcante, A Bruxa não tem apelo pro público o suficiente pra isso. Pra mim é mais um filme que entrará na lista de clássicos cult, que tem qualidade, mas é feito pra um grupo de pessoas bem específico. E assim como a ambiguidade de vários elementos do filme que vão me deixar pensando sobre ele por um bom tempo, sinceramente, eu ainda não sei se estou nesse grupo, ou não.

> Vale a pena assistir no cinema? Só se você souber exatamente o que esperar. O filme é totalmente baseado na atmosfera que ele cria, e se questões religiosas não tem muito impacto em você, o filme não vai funcionar. Se você fica entendiado com um filme lento, sem muita coisa acontecendo, ele também não vai funcionar. Veja se você procura uma experiência diferente, A Bruxa é um filme angustiante, e que precisa ser digerido por um bom tempo. Se eu tivesse que decidir, diria pra esperar e assistir em casa, porque boa parte do público não vai estar no clima do filme, e vão dar uma estragada na sua experiência, mesmo se você estiver.

> Seguro ver acompanhado? Não é um filme com muitos sustos e sangue, então não vai afastar pessoas que são sensíveis a isso. Até rola uma bundinha aqui e ali, mas é um nudez bem inocente.

> Trailer:

E se você procura uma análise mais técnica, recomendo conhecer o site Cine Grandiose, feito pelo Caio Bogoni, amigo meu. Tem a análise de A Bruxa aqui, e de mais uma caralhada de filmes. Confere lá.